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Zoés

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
 Nota: se procura pela língua da família linguística tupi-guarani, falada pelos Zoés, veja Língua zoé.
Zo'é
Membros da etnia Zo'é
População total
315 (2019)[1]
Regiões com população significativa
Óbidos (Pará) e Oriximiná, no Pará, no  BrasilCartagenes, 2010[2]
Línguas
Língua zoé
Religiões
Xamanismo

Os Zo'é (zoés),[3] ou poturu,[1][4] são um povo indígena que habita a Terra Indígena Zoé[1][5][6] (ou Área Indígena Cuminapanema/Urukuriana[7][8]), na bacia do Cuminapanema[8] (entre os rios Erepecuru, Cuminapanema e Curuá[1]), nos municípios brasileiros de Óbidos[5][9] e Oriximiná,[1] no noroeste do estado brasileiro do Pará. A sua população em 2010 era de 256 indivíduos,[10] tendo crescido para 330 pessoas (IEPE 2022).[11]

O seu povo pertence ao grupo dos povos tupi-guaranis[1][8][12][13] e fala a língua zo'é.[14] Com exceção de alguns jovens que aprenderam palavras em português ouvindo funcionários da Fundação Nacional do Índio falar no rádio, sua população é essencialmente monolíngue.[10] São conhecidos pelo uso do poturu (também chamado eberpot[3] ou 'mber'pót),[15] um cilindro que é enfiado numa perfuração do lábio inferior.

Esta etnia foi considerada um dos últimos povos "intactos" na Amazônia.[8] E é um dos grandes desafios da política indigenista da Fundação Nacional do Índio, pois tiveram recente-contato com a sociedade da redondeza na década de 1980, e foi preciso este órgão governamental intervir devido uma epidemia de gripe levada por missionários que matou um quarto dos indígenas.[16] Assim a Frente de Proteção Etnoambiental do Cuminapanema da Funai realiza a mediação com os zoés através de reuniões regulares e intercâmbios com os vizinhos, para esclarecer os problemas da gestão territorial e invasão de extrativistas e missionários.[16]

Modo de vida

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Os zoés são nômades caçadores-coletores que, durante certos períodos do ano, param para cultivar mandioca, banana, pimentão e, algodão.[15] Nesses períodos, habitam uma ou duas cabanas ao redor da plantação. Quando a colheita acaba, se mudam para outra localidade para iniciar novamente o plantio. São especialistas em caça. Possuem um tipo de flecha para cada animal, que inclui anta, macaco, urubu-rei, até pequenos peixes que eles pescam com pequenas flechas e veneno (timbó[17]).[15] Também possuem animais de estimação, que inclui espécies da qual eles alimentam-se (como a "queixada"): porém não alimentam-se dos domesticados.[15] Os zoés levam os animais de estimação para onde forem. A castanha-do-pará também tem uma grande importância na sua alimentação.[15]

Os zoés possuem, como principal tradição, o poturu: um tembetá feito com o osso da perna de macaco que tanto homens como mulheres usam no lábio inferior. O uso do poturu inicia-se com um palito quando crianças e vai aumentando conforme a idade. A perfuração do lábio inferior das crianças é um importante rito zoé. Outros ritos zoés são celebrados no nascimento, na morte, na primeira menstruação das meninas e na primeira anta caçada pelos meninos. Nesses ritos ingere-se o "seh'py'", uma bebida fermentada de tubérculos.[15] As mulheres usam um chapéu feito de plumas brancas de aves na parte frontal da cabeça, e o cabelo amarrado atrás. Já os homens ocasionalmente usam um cocar de palha. Os homens usam um corte de cabelo que arrendonda completamente a testa independente de o cabelo ser longo ou comprido. Os zoés se pintam completamente de vermelho com alguns desenhos pretos — exceto o rosto — em ocasiões especiais.

Habitação

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As suas habitações variam de tamanho e construção conforme o local. Normalmente, em volta das plantações, eles habitam construções de madeira apenas com um teto de palha e algumas redes. Porém, na floresta, constroem construções arrendondadas de folhas de palmeira, sempre com fogueiras no meio.

Casamento e família

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Os rituais de casamento dos zoés nunca foram completamente compreendidos. Eles praticam, ao mesmo tempo, as duas formas de poligamia: poliandria e poliginia. Isto é, uma mulher pode ter vários maridos e um homem várias esposas. Os jovens normalmente se tornam esposos ou esposas de membros mais velhos para aprenderem como cuidar de uma família. Quando são jovens, aprendem o necessário para cuidar de uma família. Quando ficam velhos, estes são cuidados com muita atenção pelas próprias famílias. Normalmente vivem em famílias pequenas e muito próximas e cuidam com atenção de cada membro.

Tradições e mitologia

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Os zoés realizam uma espécie de festival todo ano, onde os membros da etnia se encontram, dançam e cantam. Na principal dança, os homens cantam batendo um taco de madeira no chão. Os zoés normalmente cantam e conversam em volta de fogueiras. As mulheres normalmente cozinham e ajudam os homens a prepararem as flechas. Puas e esmaga crânios com sua grande garra. Segundo a mitologia do povo, um antepassado chamado Sihié'abyr mostrou-lhes como usar o ornamento labial característico da etnia.[15]

História

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A Fundação Nacional do Índio tomou conhecimento da existência dos zoés no início da década de 1970, durante as obras de construção da rodovia BR-210 (Perimetral Norte). Em 1982, missionários norte-americanos, da Missão Novas Tribos do Brasil,[8][15] efetuaram um breve e tenso contato com o até então povo isolado na bacia do Cuminapanema no estado do Pará,[8] que se limitou à entrega de alguns presentes. Os missionários tentaram novos contatos ao longo dos anos seguintes, mas encontros tensos entre zoés e missionários motivaram a Fundação Nacional do Índio (que fizeram contato com zoés em 1989[8]) a pedir em outubro de 1991 a saída dos missionários da região, passando a fundação a exercer um trabalho assistencial junto aos zoés. Durante o período de contato com os missionários, os zoés sofreram grandes epidemias de doenças contra as quais tinham pouca imunidade, o que reduziu drasticamente o tamanho da população.[15][16] Atualmente, existe a preocupação das autoridades governamentais em proteger os zoés do contato com os não-zoés, de modo a protegê-los de novas epidemias.[18]

Atualmente estão protegidos por Frente de proteção etnoambiental e estão mantendo a cultura e as tradições. A dificuldade agora é, como preparar estes indígenas para o próximo contato inevitável com a realidade fora das aldeias.[16] A Funai tenta proteger ao máximo a etnia zoé, mas os próprios indígenas são ansiosos pelo contato com a sociedade fora da TI, além da pressão de missionários querendo evangeliza-los.[16] Mas a Funai analisa que a mediação deste contato deve levar uns dez anos, buscando fortalecer a cultura dos zoés e mostrando a realidade de outras etnias após fazerem contato; muitas foram dizimadas ou abandonaram suas tradições.[16]

A Funai descobriu que a etnia wai-wai, moradores próximos dos zoés, que já tiveram contato com estes missionários, estão tentando a aproximação com os vizinhos e, o órgão não pode proibir o contato entre indígenas, mesmo que ocorra a interferência cultural.[19]

As Terras Indígenas dessas etnias na Amazônia Legal são constantemente invadidas ilegalmente por missionários e pela ação de madeireiros.[20][21] Devido isto, em 2014 a Funai criou o Sistema de Proteção e Promoção de Direitos com doze Frentes de Proteção Etnoambiental,[20][22] para fazer a vigilância ostensiva e em tempo integral das áreas.[23][22] São sete as etnias indígenas recém-contactados no Brasil pela Funai, que estão sobre proteção deste sistema: korubo, zo'é, akunt'su, tupi-kawahiv, kanoe, uruwahá e, awa-guajá.[20]

A Funai através da Coordenação Geral de Índios Isolados e Recém Contatados (CGIIRC) verificou que alguns grupos indígenas recém-contactados estavam em situação de fragilidade, assim ofereceu assistência diferenciada a estes: zo’é no Pará; aos kanoê e aos akuntsu em Rondônia, e; aos korubo do Javari no Amazonas.[8]

Referências

  1. 1 2 3 4 5 6 «Zo'é - Povos Indígenas no Brasil». pib.socioambiental.org. Consultado em 21 de junho de 2022. Cópia arquivada em 9 de outubro de 2026
  2. ↑ Povos Indígenas no Brasil: 2006-2010 2011, p. 9-16.
  3. 1 2 «O jardim das zoés». revistaplaneta.com.br. 22 de abril de 2014. Consultado em 19 de novembro de 2024. Cópia arquivada em 13 de outubro de 2025
  4. ↑ Coletânea de Documentos da Terra Índigena Zo’é, Processo FUNAI/BSB/0217/99 (PDF). [S.l.]: Projeto Integrado de Proteção às Populações e Terras Indígenas da Amazônia Legal (PPTAL/FUNAI), Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI). 29 de novembro de 1999. Cópia arquivada (PDF) em 7 de dezembro de 2025
  5. 1 2 «Terra Indígena Zo´é». terrasindigenas.org.br. Consultado em 19 de novembro de 2024. Cópia arquivada em 9 de outubro de 2026
  6. ↑ Vaz, Antenor (2011). Isolados no Brasil: política de estado: da tutela para a política de direitos - uma questão resolvida? (PDF). Col: Informe IWGIA 10. Copenhagen: Instituto de Promoção Estudos Sociais, Editora (International Work Group for Indigenous Affairs, IWGIA). ISBN 978-87-91563-94-2. OCLC 1090089165. Cópia arquivada (PDF) em 22 de setembro de 2026. Resumo divulgativo
  7. ↑ Paulo, Comissão Pró-Índio de São. «Zo'é». Comissão Pró-Índio de São Paulo. Consultado em 21 de novembro de 2024. Cópia arquivada em 20 de maio de 2026
  8. 1 2 3 4 5 6 7 8 «Quem são? - Povos Indígenas no Brasil». socioambiental.org. Consultado em 19 de novembro de 2024. Cópia arquivada em 23 de outubro de 2026
  9. ↑ Cadastro Único para Programas Sociais: Qual é a realidade dos povos indígenas no Brasil? (PDF). [S.l.]: Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome do Brasil. Cópia arquivada (PDF) em 14 de maio de 2026
  10. 1 2 Instituto Socioambiental. «Zo'é». Povos Indígenas do Brasil. Consultado em 31 de março de 2014. Cópia arquivada em 23 de abril de 2016
  11. ↑ «Terra Indígena Zo´é». terrasindigenas.org.br. Consultado em 19 de novembro de 2024. Cópia arquivada em 9 de outubro de 2026
  12. ↑ «Isolated Indians: the case of the Zo'é». Indigenous Peoples in Brazil (em inglês). Instituto Socioambiental. Consultado em 18 de outubro de 2007. Arquivado do original em 15 de outubro de 2007
  13. ↑ «Jipohan is someone like yourself». socioambiental.org (em inglês). Consultado em 18 de outubro de 2007. Cópia arquivada em 5 de julho de 2007
  14. ↑ «Zo'é». Ethnologue. Consultado em 4 de abril de 2012. Cópia arquivada em 26 de abril de 2025
  15. 1 2 3 4 5 6 7 8 9 «Zo'é, emergindo lentamente do isolamento». Organização Survival International. Consultado em 21 de novembro de 2024. Cópia arquivada em 9 de maio de 2026
  16. 1 2 3 4 5 6 «Isolados, índios da etnia zoé são desafio para a Funai». terrasindigenas.org.br. Consultado em 21 de novembro de 2024. Cópia arquivada em 5 de dezembro de 2024
  17. ↑ FERREIRA, A. B. H. Novo dicionário da língua portuguesa. 2ª edição. Rio de Janeiro. Nova Fronteira. 1986. p. 1 676.
  18. ↑ «Zo'é - Povos Indígenas no Brasil». pib.socioambiental.org. Consultado em 21 de novembro de 2024. Cópia arquivada em 9 de outubro de 2026
  19. ↑ «Isolados, índios da etnia zoé são desafio para a Funai». terrasindigenas.org.br. Consultado em 21 de novembro de 2024. Cópia arquivada em 5 de dezembro de 2024
  20. 1 2 3 «Terra Indígena Hi-Merimã». Instituto Terras Indigenas do Brasil. Consultado em 14 de novembro de 2024. Cópia arquivada em 9 de outubro de 2026
  21. ↑ Ricardo, Fany; Fávero Gongora, Majoí, eds. (2019). Cercos e resistências: povos indígenas isolados na Amazônia brasileira (PDF). C3L00002 1a edição ed. São Paulo: Instituto Socioambiental. ISBN 978-85-8226-073-9. OCLC 1124955605. Cópia arquivada (PDF) em 5 de agosto de 2025. Resumo divulgativo
  22. 1 2 «MPF investiga entrada ilegal de missionários em terras indígenas do Amazonas | Terras Indígenas no Brasil». terrasindigenas.org.br. Consultado em 30 de outubro de 2024. Cópia arquivada em 13 de dezembro de 2024
  23. ↑ «Missionário dos EUA é interrogado pela Funai após entrar ilegalmente em terra de índios isolados | Terras Indígenas no Brasil». terrasindigenas.org.br. Consultado em 30 de outubro de 2024. Cópia arquivada em 13 de dezembro de 2024

Bibliografia

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Ligações externas

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