Perdão

Perdão, em sentido psicológico, é o processo intencional e voluntário pelo qual alguém que se sentiu injustiçado, prejudicado ou magoado muda os seus sentimentos e atitudes em relação ao ofensor e supera o impacto da ofensa, incluindo emoções negativas como o ressentimento ou o desejo de vingança.[1]
Os teóricos divergem quanto ao grau em que acreditam que o perdão também implica substituir as emoções negativas por atitudes positivas (por exemplo, uma maior capacidade de tolerar o ofensor),[2][3][4] ou requer reconciliação com o ofensor.[5]
O perdão é interpretado de muitas maneiras por diferentes pessoas e culturas.[6] Como conceito psicológico e como virtude, a obrigação de perdoar e os benefícios do perdão foram explorados no pensamento religioso, na filosofia moral, nas ciências sociais e na medicina. A maioria das religiões mundiais inclui ensinamentos sobre o perdão, e muitos deles fornecem uma base para várias tradições e práticas modernas de perdão.
Em nível psicológico, o perdão é diferente da simples condescendência (considerar a ação prejudicial, mas "perdoá-la" ou ignorá-la por certas razões de "caridade"), da desculpa ou do indulto (simplesmente liberar o ofensor da responsabilidade por suas ações) ou do esquecimento (tentar apagar a memória de uma ofensa). Em algumas correntes de pensamento, envolve um esforço pessoal e "voluntário" em direção à autotransformação da metade envolvida no relacionamento, de modo que se restaure a paz e, idealmente, o que o psicólogo Carl Rogers chamou de "consideração positiva incondicional" em relação ao outro.[2][7]
Em muitos contextos, o perdão é concedido sem qualquer expectativa de justiça restaurativa e pode ser concedido sem qualquer resposta por parte do ofensor (por exemplo, pode-se perdoar uma pessoa que está incomunicável ou morta). Em termos práticos, pode ser necessário que o ofensor ofereça alguma forma de reconhecimento, como um pedido de desculpas, ou peça explicitamente perdão, para que a pessoa ofendida acredite ser capaz de perdoar.[2]
No pensamento filosófico
[editar | editar código]O filósofo Joseph Butler (Quinze Sermões) definiu o perdão como "superação do ressentimento, superação do ódio moral, como um ato de fala e como tolerância".[8] Em sua palestra de 1962 sobre "Liberdade e Ressentimento", o filósofo P. F. Strawson descreveu o perdão como "um tema bastante fora de moda na filosofia moral" naquela época.[9]
Reconhecimento popular
[editar | editar código]A necessidade de perdoar é amplamente reconhecida, mas as pessoas muitas vezes não sabem como fazê-lo. Por exemplo, em uma grande amostra representativa de americanos sobre vários tópicos religiosos em 1988, a Gallup Organization descobriu que 94% disseram que era importante perdoar, mas 85% disseram que precisavam de alguma ajuda externa para conseguir perdoar. No entanto, a oração regular não se mostrou eficaz para esse propósito. A pesquisa da Gallup revelou que o único mediador eficaz era o envolvimento na "oração meditativa".[10]
O perdão foi um mecanismo central dos programas de justiça restaurativa[11] após a abolição do apartheid no processo de verdade e reconciliação, entre vítimas e perpetradores do genocídio ruandês, em resposta à violência no conflito israelo-palestino e no conflito da Irlanda do Norte. Isto foi documentado no filme Beyond Right and Wrong: Stories of Justice and Forgiveness (2012).[12]
Referências
- ↑
- Doka, Kenneth (2017). Grief is a journey. [S.l.]: Atria Books. pp. 14–16. ISBN 978-1-4767-7151-9
- Hieronymi, Pamela (maio de 2001). «Articulating an Uncompromising Forgiveness» (PDF). pp. 1–2. Consultado em 18 de janeiro de 2020. Cópia arquivada (PDF) em 7 de março de 2026
- North, Joanna (1998). Exploring Forgiveness. [S.l.]: University of Wisconsin. pp. 20–21. ISBN 0-299-15774-1
- 1 2 3 «American Psychological Association. Forgiveness: A Sampling of Research Results.» (PDF). 2006. pp. 5–8. Consultado em 7 de fevereiro de 2009. Cópia arquivada (PDF) em 26 de junho de 2011
- ↑ «What Is Forgiveness?». University of California, Berkeley: The Greater Good Science Center. Cópia arquivada em 14 de novembro de 2013
- ↑ Field, Courtney; Zander, Jaimie; Hall, Guy (setembro de 2013). «'Forgiveness is a present to yourself as well': An intrapersonal model of forgiveness in victims of violent crime». International Review of Victimology (em inglês). 19 (3): 235–247. ISSN 0269-7580. doi:10.1177/0269758013492752
- ↑ Wade, Nathaniel (14 de agosto de 2020). «Forgive and be free». Aeon
- ↑ Lawler-Row, Kathleen A.; Scott, Cynthia A.; Raines, Rachel L.; Edlis-Matityahou, Meirav; Moore, Erin W. (1 de junho de 2007). «The Varieties of Forgiveness Experience: Working toward a Comprehensive Definition of Forgiveness». Journal of Religion and Health. 46 (2): 233–248. ISSN 1573-6571. doi:10.1007/s10943-006-9077-y
- ↑ Rogers, Carl (1956). Client-Centered Therapy 3 ed. Boston: Houghton-Mifflin
- ↑ Newberry, Paul A. (abril de 2001). «Joseph Butler on Forgiveness: A Presupposed Theory of Emotion». Journal of the History of Ideas. 62 (2): 233–244. JSTOR 3654356. doi:10.2307/3654356
- ↑ Strawson, P. F. (9 de maio de 1962), Freedom and Resentment (Philosophical lecture), consultado em 18 de maio de 2024, cópia arquivada (PDF) em 18 de janeiro de 2024
- ↑ Gorsuch, R. L.; Hao, J. Y. (1993). «Forgiveness: An exploratory factor analysis and its relationship to religious variables». Review of Religious Research. 34 (4): 351–363. JSTOR 3511971. doi:10.2307/3511971. Cópia arquivada em 21 de setembro de 2004 Verifique o valor de
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- ↑
- Fraser, Giles (8 de fevereiro de 2013). «The key to forgiveness is the refusal to seek revenge». The Guardian. Consultado em 21 de fevereiro de 2013. Cópia arquivada em 24 de março de 2014
- «Beyond Right & Wrong: Stories of Justice and Forgiveness». Forgiveness Project. 1 de fevereiro de 2013. Consultado em 22 de fevereiro de 2013. Cópia arquivada em 2 de março de 2013
Bibliografia
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- Konstan, David (2010). Before Forgiveness: The Origins of a Moral Idea. Cambridge/New York: Cambridge University Press
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- Schmidt, Doug (2003). The Prayer of Revenge: Forgiveness in the Face of Injustice. [S.l.]: David C Cook. ISBN 0-7814-3942-6
- Tipping, Colin C. (1997). Radical Forgiveness: Making Room for the Miracle. [S.l.]: Quest Publishing & Distribution. ISBN 0-9704814-1-1
