Rio Ganges
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| Ganges Gaṅgā • गङ्गा • গঙ্গা | |
|---|---|
O Ganges em Varanasi | |
| Comprimento | 2 525 km |
| Nascente | Glaciares Gangotri e Satopanth, em Uttarakhand |
| Altitude da nascente | 3 892 m |
| Caudal médio | 16 648 m³/s |
| Caudal máximo | 70 000 m³/s |
| Caudal mínimo | 2 000 m³/s |
| Foz | Golfo de Bengala |
| Altitude da foz | 0 m |
| Área da bacia | 1 080 000 km² |
| Delta | Delta do Ganges |
| Afluentes esquerda | Gagara, Gandaki, Kosi, Bagmati, Mahananda, Meghna |
| Afluentes direita | Yamuna, Son, Tamsa |
| Países | |
| Localização da foz do Ganges no subcontinente Indiano | |
| Coordenadas | 22° 05′ N, 90° 50′ L |
O Rio Ganges (em hindi e na maior parte das línguas indianas: गङ्गा; romaniz.: Gaṅgā; ⓘ; em bengali: গঙ্গা; romaniz.: Gōnga) é um dos principais rios do subcontinente Indiano, e um dos vinte maiores do mundo em caudal.[1] Suas águas deslocam-se rumo ao leste através da planície do Ganges do norte da Índia até ao Bangladesh. Com 2 510 km de extensão, nasce no Himalaia ocidental, no estado indiano de Uttarakhand, e deságua no Delta do Ganges, no golfo de Bengala. Desde muito tempo é considerado um rio sagrado para os hindus, que o veneram na forma da deusa Ganga, e também possui um grande valor histórico: diversas capitais de províncias ou impérios, como Patliputra, Kannauj, Kara, Prayagraj, Murshidabad e Calcutá, localizam-se em suas margens. O Ganges e seus afluentes abrangem uma bacia hidrográfica fértil de cerca de um milhão de quilômetros quadrados, que é a mais densamente povoada do planeta, com mais de 400 milhões de pessoas e uma densidade populacional de cerca de 390 hab/km2.[2] A profundidade média do rio é de 16 metros, e a máxima é de 30 metros.
O ex-primeiro-ministro da Índia Jawaharlal Nehru, em seu livro Descoberta da Índia, atribui ao rio diversos significados simbólicos:
"O Rio Ganges, acima de tudo, é o rio da Índia, que manteve cativo o coração da Índia e atraiu incontáveis milhões às suas margens desde a alvorada da história. A história do Ganges, de sua fonte ao mar, dos tempos antigos aos modernos, é a história da civilização e da cultura da Índia, da ascensão e queda de impérios, de cidades grandes e orgulhosas, de aventuras do homem."
Percurso
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Embora diversos cursos de água formem a nascente do Ganges, os seis riachos e suas cinco confluências recebem diferentes ênfases geográficas e culturais (ver mapa). O rio Alaknanda se encontra com o Dhauliganga em Vishnuprayag, o rio Nandakini em Nandprayag, o rio Pindar em Karnaprayag, o rio Mandakini em Rudraprayag e, finalmente, o rio Bhagirathi em Devprayag, formando o curso principal, o Ganges. O Bhagirathi é o principal destes rios, e nasce ao pé do Glaciar Gangotri, em Gaumukh, a uma altitude de 3.892 metros. A nascente do Alaknanda é formada pela água derretida das neves de picos como o Nanda Devi, o Trisul e o Kamet.
Após percorrer 200 quilômetros através de um estreito vale em meio ao Himalaia, o Ganges passa por um desfiladeiro e chega na planície Gangética, na cidade de Haridwar, centro de peregrinação; lá, uma represa desvia parte de suas águas até o Canal do Ganges, que irriga a região de Doab, em Uttar Pradesh. O percurso do Ganges, que até então tinha uma direção sudoeste, passa então a se dirigir ao sudeste, através das planícies do norte da Índia.
O rio segue então um curso curvo, de 800 km, que passa pela cidade de Kanpur antes de receber, do sudoeste, pelo Yamuna, em Prayagraj. Este ponto é conhecido como o Sangam em Allahabad; Sangam é um local sagrado do hinduísmo e, de acordo com textos hindus antigos, certa vez um terceiro rio, o Sarasvati, encontrava os outros dois neste ponto.
Após diversas confluências, com rios como o Kosi, o Son, o Gandaki e o Ghaghra, o Ganges forma uma correnteza formidável no trecho entre Prayagraj e Malda, na Bengala Ocidental. Durante o percurso passa pelas cidades de Mirzapur, Buxar, Varanasi, Patna e Bhagalpur. Nesta, o rio contorna os Montes Rajmahal, e começa a se dirigir rumo ao sul. Em Pacur o rio começa a perder força, com a ramificação do primeiro de seus afluentes, o Baguirati-Hugli, que forma em seguida o rio Hooghly. Nas proximidades da fronteira com Bangladesh, a Barragem de Farakka, construída em 1974, controla o fluxo do Ganges, desviando parte de suas águas para um canal ligado ao Hooghly, de modo a mantê-lo relativamente livre de silte.
Após entrar no Bangladesh, o Ganges passa a ser conhecido como Padma, até receber as águas do Jamuna, o maior afluente do Brahmaputra. Mais adiante, o Ganges recebe as águas do rio Meghna, o segundo maior afluente do Brahmaputra, e passa a ser chamado de Meghna ao entrar no estuário do Meghna. Ao chegar no delta do Ganges, com 350 km de largura, ele finalmente desagua na baía de Bengala. Apenas o Amazonas apresenta uma vazão maior do que a vazão combinada dos sistemas fluviais dos rios Ganges, Brahmaputra e Surma–Meghna (43 950 m³/s).[3][4]
Importância religiosa
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Situada às margens do rio Ganges, Varanasi é considerada por muitos fiéis a cidade mais sagrada do hinduísmo. O Ganga é mencionado no Rigveda, a mais antiga das escrituras hindus. Consta do Nadistuti sukta (10.75), onde estão listados os rios de leste a oeste. É um costume local espalhar no rio as cinzas de entes queridos que foram cremados.
De acordo com a religião hindu um rei muito famoso, Bhagiratha, praticou por muitos anos, a tapasya, para trazer à Terra Ganga de sua residência nos Céus, para que encontrasse a salvação de seus ancestrais, amaldiçoados por um profeta. Ganga se convence e, através de uma trança de cabelo (Jata) do deus Shiva, desce à Terra para lavar os pecados dos humanos e torná-la pia e fértil. Para os hindus da Índia, o Ganges não é apenas um rio, mas também uma divindade materna, um conjunto de tradições, e muito mais.
Alguns hindus acreditam que uma vida não é completa sem um mergulho no Ganges pelo menos uma vez na vida. Muitas famílias hindus conservam um frasco com água do rio em suas casas, hábito que é considerado prestigioso, para que pessoas à beira da morte possam beber de sua água; muitos hindus acreditam que o Ganges pode limpar uma pessoa de todos os seus pecados, e poderia até mesmo curar a doença. As escrituras antigas mencionam que a água do Ganges porta as bênçãos dos pés do Senhor Vishnu; assim, a Mãe Ganges também é conhecida como Vishnupadi, que significa "pés de Vishnu".
Algumas das congregações religiosas e festivais hindus mais importantes acontecem em torno do rio. Estes eventos, como o Kumbh Mela, realizado a cada doze anos em Prayagraj, são realizados às margens do rio. Varanasi tem centenas de templos situados à beira do Ganges, que frequentemente são alagados durante as estações chuvosas. A cidade, além de ponto importante de peregrinação para hindus de todos os locais, também é tradicionalmente associada à prática da cremação.
Poluição
[editar | editar código]A poluição do Ganges tem afetado as 400 milhões de pessoas que vivem próximas de suas águas.[5]
Desde a última década de 90 e especialmente nos últimos anos, as condições da água do rio e afluentes têm ficado abaixo das consideradas aceitáveis pela OMS, já que o despejo irregular de esgoto tem aumentado, inclusive a partir de um hospital que atende tuberculosos.
O Ganges foi classificado entre os cinco rios mais poluídos do mundo em 2007,[6] com níveis de coliformes fecais próximo a Varanasi mais de mil vezes superior ao limite oficial do governo indiano.[7] A poluição ameaça não somente os seres humanos, mas também as mais de 140 espécies de peixes, 90 de anfíbios e o golfinho-do-ganges, todos ameaçados de extinção.[6] O Plano de Ação Ganga, uma iniciativa ambiental para limpar o rio, tem sido um grande fracasso até agora,[8][9][10] devido à corrupção e à falta de conhecimentos técnicos,[11] falta de um bom planejamento ambiental,[12] crenças e tradições indianas[13] e falta de apoio das autoridades religiosas.[14]
Outro problema é o ritual da cremação dos mortos em suas margens. Dependendo da casta e da situação econômica da família, muitas vezes os corpos não são cremados corretamente e/ou jogados inteiros no rio, contaminando-o. O afluente Yamuna, cuja vida aquática desapareceu, teria recebido US$ 500 milhões em ações de despoluição nos últimos dez anos, segundo o Conselho de Controle de Poluição de Nova Délhi.[15]
Entretanto, o rio oferece aos moradores de sua região suprimento de comida e água fresca. Muitas criaturas nativas, incluindo o crocodilo gavial, vivem às suas margens.
História
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Durante o início das período védico, os rios Indo e Sarasvati eram os principais rios da região; os três Vedas posteriores, no entanto, parecem dar mais importância ao Ganges, gradualmente mais citado nas obras.
Talvez o primeiro ocidental a mencionar o Ganges tenha sido Megástenes, por diversas vezes no decorrer de sua obra, Indika: "A Índia (...) possui muitos rios grandes e navegáveis que, depois de nascerem nas montanhas que se estendem ao longo da fronteira setentrional, atravessam a terra plana; muitos destes, após unirem-se uns aos outros, acabam desaguando no rio chamado Ganges. Este rio, que na sua nascente tem 30 estádios de largura, flui no sentido norte-sul, e deságua no oceano que forma a fronteira leste do Gangaridai, uma nação que possui uma tropa numerosa dos mais enormes elefantes".[16]
Uma representação ocidental do rio pode ser vista na Piazza Navona, de Roma, onde uma escultura célebre — a Fontana dei Quattro Fiumi, "Fonte dos Quatro Rios", da autoria de Gian Lorenzo Bernini, em 1651, — simboliza os quatro grandes rios do mundo (o Ganges, o Nilo, o Danúbio e o Rio da Prata).
Principais afluentes
[editar | editar código]Economia
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A bacia do Ganges, com seu solo fértil, é crucial para as economias agriculturais da Índia e do Bangladesh. Tanto o Ganges quanto seus afluentes fornecem uma fonte perene de irrigação para uma região extensa; entre as principais culturas da área estão o arroz, a cana-de-açúcar, lentilhas, batatas, trigo e sementes usadas na fabricação de óleos.
População
[editar | editar código]Os chars são ilhas temporárias formadas pela deposição de sedimentos que sofreram erosão a partir das margens do rio, especialmente no estado de Bengala Ocidental. Cada chat é utilizado como moradia para até 20 000 pessoas; seu solo é extremamente fértil, e portanto pode sustentar plantações ou servir como pasto para o gado — porém pode desaparecer em questão de algumas horas, em consequência de alguma movimentação excessiva na correnteza, especialmente durante a estação das monções. Os habitantes dos chars são refugiados de Bangladesh ou bengaleses, porém o governo de Bengala Ocidental não reconhece sua existência nem lhes concede documentos de identidade para que possam emigrar ou obter empregos em outros locais. O saneamento nestas ilhas é extremamente precário, e os seus moradores não possuem assistência sanitária; a escolaridade também não lhes é acessível, e o analfabetismo é crônico. O governo, no entanto, exige dos moradores das ilhas o pagamento de impostos.[17]
Referências
- ↑ TheGanga: water use in the Indian subcontinent, Pranab Kumar Parua, p. 33
- ↑ Arnold, Guy (2000). World strategic highways. [S.l.]: Taylor & Francis. pp. 223–227. ISBN 9781579580988. Consultado em 26 de abril de 2011
- ↑ Igor Alekseevich, Shiklomanov (2009). Hydrological Cycle Volume III. [S.l.]: EOLSS Publications. ISBN 978-1-84826-026-9. Cópia arquivada em 7 de janeiro de 2026
- ↑ Pavla, Pekárová; Pavol, Miklánek; Ján, Pekár (2003). «Spatial and temporal runoff oscillation analysis of the main rivers of the world during the 19th–20th centuries» (PDF). Hydrology. 274: 62-79. doi:10.1016/S0022-1694(02)00397-9. Cópia arquivada (PDF) em 18 de agosto de 2026
- ↑
- 1 2 «Cópia arquivada». Consultado em 12 de dezembro de 2011. Arquivado do original em 23 de junho de 2012
- ↑ "India and pollution: Up to their necks in it", The Economist, 27 July 2008.
- ↑ Haberman, David L. (2006), River of love in an age of pollution:the Yamuna River of northern India, ISBN 0520247906, University of California Press. Pp. 277
- ↑ Gardner, Gary, «Engaging Religion in the Quest for a Sustainable World», in: Bright, Chris; et al., State of the World: 2003, ISBN 0393323862, W. W. Norton & Company. Pp. 256, pp. 152–176
- ↑ "Clean Up Or Perish" [ligação inativa], The Times of India, 19 de março de 2010
- ↑ Sheth, Jagadish N. (2008), Chindia Rising, ISBN 0070657084, Tata McGraw-Hill Education. Pp. 205
- ↑ Singh, Munendra; Singh, Amit K. (2007), «Bibliography of Environmental Studies in Natural Characteristics and Anthropogenic Influences on the Ganga River», Environ Monit Assess, 129: 421–432, doi:10.1007/s10661-006-9374-7
- ↑ Tiwari, R. C. (2008), «Environmental Scenario in India», in: Dutt, Ashok K.; et al., Explorations in Applied Geography, ISBN 8120333845, PHI Learning Pvt. Ltd. Pp. 524
- ↑ Puttick, Elizabeth (2008), «Mother Ganges, India's Sacred River», in: Emoto, Masaru, The Healing Power of Water, ISBN 1401908772, Hay House Inc. Pp. 275, pp. 241–252
- ↑ NINNI, Karina. (22 de março de 2010). Nova Délhi - Ironia indiana. Caderno Planeta. Jornal O Estado de S.Paulo
- ↑ Diodoro, II. 37
- ↑ «Wandering Gaia». "The Give and Take of the Ganges". Consultado em 13 de abril de 2009. Cópia arquivada em 21 de agosto de 2026
Bibliografia
[editar | editar código]- Alley, Kelly D. (2002). On the Banks of the Ganga: When Wastewater Meets a Sacred River. [S.l.]: University of Michigan press. ISBN 0-472-06808-3
- Alter, Stephen (2001). Sacred Waters: A Pilgrimage up the Ganges River to the Source of Hindu Culture. [S.l.]: . Harcourt. ISBN 0-15-100585-0
- Berwick, Dennison. A Walk Along the Ganges. [S.l.: s.n.]
- Darian, Steven G (1978). The Ganges in Myth and History. [S.l.]: The University Press of Hawaii, Honolulu. ISBN 0-8248-0509-7
- Newby, Eric (1966). Slowly down the Ganges. [S.l.: s.n.] ISBN 0-86442-631-3
- Hillary, Edmund (1980). From the Ocean to the Sky: Jet Boating Up the Ganges. [S.l.]: Ulverscroft Large Print Books Ltd. ISBN 0-7089-0587-0
Ligações externas
[editar | editar código]- «Ganges» (em inglês). no Imperial Gazetteer, da Índia, 1909



